Dom Juan da janela

mulehr na chuva

Rua cinza, com prédios esguios de cores fortes, uma mulher de laranja berrante chamando atenção para suas belas curvas. Ao fundo, um pintor a observa e cria em sua tela uma história para a moça, sem saber se é real ou não. O simples fato de imaginar já torna aquele momento especial.

Ele começa a desenhar sua nuca com belos traços de marrom e um misto de marfim, com um ar de altivez e um pouco de pretensão. No seu louco imaginário, o rapaz sabe que a tem em seus pincéis. Aquela bela moça pertence aos seus dons, e detalhista como Monet, ele não pode perder um traço de sua belíssima musa. Pinta seus sonhos na tela, pintor de donzelas. Se fosse em outra época, estaria recebendo convites burguês, para um bate papo, servido de uma boa cerveja e pessoas que o admirassem. Os tempos mudaram, e hoje, você é conhecido apenas como o Don Juan da Janela.

Algumas pessoas dizem que é um louco a perseguir as jovens que desfilam suas roupas de alta costura pela calçada. Mal sabem elas que você se encanta quando vê uma donzela levantar os tornozelos, com medo da chuva, como se a rua fosse um risco.

Só que da sua janela, avista uma jovem donzela, um tanto diferente, e você Don Juan, não imagina os gostos dessa doce menina. A chuva não a assusta, diferente das outras, o tornozelo molhado não a incomoda. Ela gosta do improvável e ri do tempo nublado.

Don Juan sente frio e prepara um café. Deixa a jovem ruiva na sua tela. Porém, fica instigado com a morena de cabelos curtos que brinca na chuva perto da sua janela. Como pode? A protagonista já estava na tela, e essa menina não pode mudar a arte!

Ele volta com sua caneca favorita, enrolado no seu cobertor de lã, pega seus pincéis e traça as curvas da ruiva, suas linhas começam a expressar sentimentos. Um sorriso brincalhão aparece na sua frente, com os olhos de criança levada. Quando ele percebe, pintou a morena da chuva. Ela rouba a cena como Julieta e Romeu. Aquela cena imortalizada na sua tela nunca o deixou em paz.

Dizem que o Don Juan da Janela passou a vida atrás da moça tão bela, preparou poemas para dizer a morena da chuva e montou uma galeria com suas obras. Pensando que a danada da publicidade iria chamar sua atenção. Nada adiantou. Ela se foi e nunca mais voltou.

Um dia o pintor com seus 38 anos, abordou uma mulher na biblioteca da rua 7, queria o livro de contos do cotidiano. A dama o olhou e apontou o livro ao seu lado, imediatamente ele percebeu aquele olhar levado e tomou uma decisão. Contou para a morena da chuva que ela foi sua musa, conversaram todos os assuntos, ela era mais surpreendente do que imaginara.

Até que por fim, depois de alguns dias, pensando naquele pintor, ela resolveu mandar uma carta descrevendo o momento da chuva para o seu Don Juan.

Querido Juan,

Aquele dia perdi meu emprego, estava cansada de tanta subordinação. Terminei com o homem que me maltratava e diminuía meus sentimentos diante das complicações. Estava cansada, jovem pintor, de tudo, da vida, das falsas alegrias. A chuva no começo me irritava, aqueles pingos não paravam de cair em meu rosto, mas chegou uma hora que entendi o porquê. Estava dançando na chuva da liberdade, me sentia extraordinária naquele momento e acredito que foi isso que você retratou nas suas obras. A liberdade, o sentimento que tanto busquei e encontrei naquele dia de chuva.

Obrigada por observar meus sentimentos.

Com amor,

Chanel

MK

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